Mau tempo: “Quase dois terços das candidaturas a apoios são indeferidas” por fraudes e outros motivos


O presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) está convicto de que apenas um terço das candidaturas apresentadas para apoiar a reconstrução das habitações devastadas pelo comboio de depressões será elegível para apoio. Fraudes, candidaturas de segundas habitações (que não são elegíveis) e falta de informação mínima são algumas das razões que levaram José Ribau Esteves a indeferir já 900 candidaturas. O antigo autarca de Aveiro sublinha ainda que é preciso ter consciência que a recuperação dos territórios vai levar “muito tempo”.

O novo presidente da CCDR Centro revela, no ECO dos Fundos, o podcast quinzenal do ECO sobre fundos europeus, que será publicado na próxima semana, que já pagou cerca de um milhão de euros em apoios. “Entraram só na região centro um bocadinho mais de 19 mil candidaturas. Das três mil que já estão tramitadas pelas câmaras e pela CCDR, 1.500 estão absolutamente concluídas. E dessas, 500 tiveram pagamento de um valor de indemnização, 900 foram indeferidas”, precisou Ribau Esteves.

“Estamos a falar de uma percentagem de quase dois terços que são indeferidas por múltiplos motivos. Ou porque não têm, o mínimo de informação consistente para poderem receber a indemnização, ou porque tiveram fraude, ou porque são segunda habitação e estas não são elegíveis”, explicou. “É a minha profunda convicção que, quando acabarmos todo este trabalho — que é um imenso trabalho, ainda por cima com uma concentração em três municípios, 70% das tais 19 mil candidaturas são em Leiria, na Marinha Grande e em Pombal –, dos 130 milhões que estão candidatados, não devemos andar longe de um terço do valor real confirmado que vamos pagar”, sublinha.

Já passaram cerca de dois meses, mais ou menos, desde o comboio de tempestades que devastou a região centro do país. Já tem uma contabilização dos estragos provocados?

Com um mês de trabalho na presidência da CCDR do Centro, uma das tarefas que veio perturbar a nossa vida normal, que já é muito agitada, já tem muitas competências, é cogerir as consequências negativas. Mas agora já estamos a falar da reação, o mais rápida e qualificada possível, à reposição da vida normal, seja das empresas, das habitações, das pessoas nas ajudas diretas, etc. Temos uma percentagem muito relevante da organização a trabalhar para a gestão desta reação. É preciso cuidado com os números porque criou-se uma ambiência de que tudo vai ser resolvido muito rapidamente e que, em muito pouco tempo, o dinheiro está na conta das pessoas, as obras estão feitas, a nossa reação é rápida e temos capacidade técnica de logística e financeira para tudo acontecer muito rapidamente.

Quando respondo a estas perguntas, gosto sempre de deixar esta nota: os danos e as perdas foram muito relevantes e, obviamente, há um trabalho que está em curso para repor. Mesmo que tivéssemos todo o dinheiro na conta de toda a gente, a capacidade técnica e de meios logísticos, materiais, para repor a normalidade nas empresas, nas habitações privadas, nos equipamentos públicos, nos arruamentos exige tempo.

E de quanto tempo estamos a falar? Qual é a sua estimativa?

Não quero falar sobre isso, porque qualquer número que dê não tem um racional objetivo. É preciso muito tempo. É bom lembrar que, arredondando a conta, há quatro anos, no pós-Covid, começou um fenómeno nos concursos públicos em Portugal de não termos empresas para tudo. De termos muitos concursos públicos, das câmaras, da instituição central, que ficam desertos. Isto quer dizer o quê? Que uma coisa boa e uma coisa má.

A coisa boa é que estamos em crescimento económico e há muito trabalho, há muita oferta de trabalho. E isto é bom. O lado negativo é que não temos capacidade disponível na construção civil, na capacidade de projetar, para responder a este pico. Daí os concursos de desertos. Quando chega no meio desta realidade, uma tempestade ou um conjunto delas que causam dano, obviamente que aquela realidade anterior é a mesma, não mudou. Portanto, precisamos de ter mais capacidade para reagir, mas a capacidade instalada para fazer é a mesma. É preciso tempo. Posso especular que em dois três anos está tudo no seu sítio. Mas é um exercício muito especulativo. Temos, só na região centro, um bocadinho mais de 19 mil habitações que sofreram danos.

Posso especular que em dois três anos está tudo no seu sítio. Mas é um exercício muito especulativo. Temos, só na região centro, um bocadinho mais de 19 mil habitações que sofreram danos.

Estamos a tratar de todas as candidaturas. Muitas delas que estão incorretas candidataram segundas habitações. Algumas são falsidades de pessoas menos sérias a tentar ter acesso a recursos a que não têm direito. Temos depois a componente social, do apoio ao rendimento, do apoio ao não trabalho, nomeadamente nas empresas, que é um trabalho mais ligado à ação social, que acompanhamos, mas sem sermos parte desse processo, globalmente a correr bem. As empresas, que têm uma relação mais direta com o Banco de Fomento, com os indicadores que o banco vai atualizando, também numa lógica positiva. Na agricultura, os meios estão definidos, as tipologias estão definidas, mas ainda não há uma cobertura total para todos os problemas. São muitas frentes.

E dou só um exemplo. A suinicultura de Leiria sofreu danos brutais, de muitas dezenas de milhões de euros. Mas hoje, quando vamos resolver o problema, ajudando aqueles industriais, há outros problemas. É que elas não foram licenciadas; ainda hoje subsistem problemas de recolha e tratamento dos efluentes que emitem. Claro que vamos ajudar, é um setor importantíssimo da atividade económica do país e um recurso alimentar importante, mas não vamos só cuidar de ajudar, de repor o telhado, a capacidade produtiva que parcialmente foi perdida. Temos de aproveitar o ensejo e tratar de tudo mais o resto. Quando, e bem, abordamos o tratamento do dano, da perda, para resolver outros problemas que já lá existiam, estamos, por um lado, a complicar a nossa vida de gestores da reposição do tal dano, mas estamos a aproveitar, na lógica positiva do já agora, para resolver problemas que nunca foram resolvidos. Aquilo é que o Governo veio chamar a transformação. O T do PTRR, que é muito importante.

Mas insisto: já tem ideia do montante? O ministro da Economia disse que seria superior a 4,7 mil milhões. O presidente da estrutura de missão falou em seis mil milhões. Em que ficamos?

De mim nunca ninguém ouvirá nenhum número. Por uma questão muito simples. Sou gestor financeiro e, quando falo de um número, falo com rigor. E não tenho nenhum mecanismo para, com rigor, subscrever qualquer um desses números. Percebi o racional do senhor ministro dos 4,7, percebi o racional do Paulo Fernandes dos seis, mas não subscrevo nenhum. Estamos a falar de muito dinheiro, de uma operação que tem vários mecanismos de receita para ajudar a compor. E temos de ter cuidado na comunicação, porque há aqui relações delicadas, desde logo, das seguradoras, que têm de aportar uma parte da verba que vai ajudar a repor o dano e a perda. Temos, infelizmente, mas é o ser humano, uma parte das pessoas a tentarem, por fraude, terem acesso a direitos que não têm.

“Na agricultura, os meios estão definidos, as tipologias estão definidas, mas ainda não há uma cobertura total para todos os problemas”, alerta José Ribau Esteves, Presidente da CCDR Centro, em entrevista ao podcast “ECO dos Fundos”.Hugo Amaral/ECO

Tem uma noção de quantos casos, em percentagem do número de candidaturas, quantas é que já foram rejeitadas?

Só para ter uma noção, números do dia 24 ou 25 de março, entraram só na região centro um bocadinho mais de 19 mil candidaturas. Das três mil que já estão tramitadas pelas câmaras e pela CCDR, 1.500 estão absolutamente concluídas. E dessas, 500 tiveram pagamento de um valor de indemnização, 900 foram indeferidas. E depois ainda ficam ali umas 100 que ainda estão nesta fase de tramitação do pagamento. Estamos a falar de uma percentagem de quase dois terços que são indeferidas por múltiplos motivos. Ou porque não têm, o mínimo de informação consistente para poderem receber a indemnização, ou porque tiveram fraude, ou porque são segunda habitação e estas não são elegíveis. Estes argumentos, e mais algum de pormenor, levam a que haja indeferimentos. No fundo, temos cerca de 130 milhões que estão apresentados como candidatura.

É a minha profunda convicção que, quando acabarmos todo este trabalho — que é um imenso trabalho, ainda por cima com uma concentração em três municípios, 70% das tais 19 mil candidaturas são em Leiria, na Marinha Grande e em Pombal –, dos 130 milhões que estão candidatados, não devemos andar longe de um terço do valor real confirmado que vamos pagar. Não há problema de dinheiro. A CCDR recebeu do Governo uma transferência financeira de 185 milhões de euros.

Quanto é que a CCDR já pagou desses 185 milhões que o Ministério das Finanças lhe transferiu?

Pagámos, atualmente, os tais 500 processos que estão pagos e que é pouco mais de um milhão de euros.

E consegue pagar num dia ou no dia a seguir, como diz o ministro da Economia?

Absolutamente. A partir do momento que o processo administrativo está terminado, está validado, pagamos de um dia para o outro. Sou eu que dou autorização. O gestor financeiro da CCDR sou eu. Se recebo a nota da unidade financeira a dizer que está pronto para pagar de manhã, à tarde está pago. Se recebo à tarde ou à noite — não me deito sem despachar — no dia seguinte está pago. Mas é bom lembrar isto, é possível pagar num dia ou dois dias, logo que o processo administrativo, a validação administrativa e técnica, está terminada.

A minha profunda convicção que, quando acabarmos todo este trabalho, dos 130 milhões que estão candidatados, não devemos andar longe de um terço do valor real confirmado que vamos pagar.

Foi criada uma bolsa de técnicos, cerca de 750, com a ajuda da Ordem dos Engenheiros e da Ordem dos Engenheiros Técnicos. Desses 750, quantos têm a trabalhar convosco na região Centro?

É muito importante clarificarmos isto, porque deu-se uma noção, nas notícias mais apressadas, de que estão aqui 700 pessoas disponíveis a trabalhar o tempo inteiro, que não fazem mais nada na vida que não seja isto. Isso não é verdade. A bolsa é uma bolsa, mas a esmagadora maioria desses técnicos não está disponível a todo o tempo. Vão-se disponibilizando por tempo parcial. Em Portugal, felizmente, não há desemprego nestas áreas. As pessoas estão a trabalhar, mas disponibilizaram-se para dar uma hora por dia, dez horas a um sábado ou quatro horas a uma sexta-feira, para darem o seu contributo.

E depois, há os problemas da eficiência dessas horas de trabalho. As pessoas têm de perceber o trabalho, têm de conhecer a realidade, seja quando são as candidaturas até cinco mil euros horas, a tratar de fotografias, seja quando têm de ir ao terreno para fazer vistorias daquelas que têm valor entre cinco mil e dez mil. Portanto, isto não é rápido. Neste momento devemos ter cerca de metade dessas pessoas a trabalhar no terreno, mas não é oito horas por dia, cinco horas por semana, porque eles são profissionais de outras artes.

E ajuda que foi disponibilizada pelas câmaras de maior dimensão, Lisboa e Porto, para as câmaras mais pequenas que não têm condições algumas de fazer face a esta catástrofe? Esses técnicos já chegaram?

Esses técnicos chegaram, fizeram algum trabalho e foram embora. Na maior parte dos casos, esses técnicos eram assistentes sociais, sociólogos, não eram exatamente engenheiros para ficarem a fazer este trabalho. Este trabalho, para ser eficiente, exige estar no terreno. Diria que, com menos de duas semanas de estar no terreno, não é possível ter níveis de eficiência que comecem a produzir relatórios para depois na CCDR podermos pagar. É preciso tempo para conhecer o território. Mesmo só para analisar fotografias, é preciso um conhecimento mínimo do território para poder olhar para uma fotografia e apreciá-la como deve ser. Enfim, já há casos de gente que usou inteligência artificial para fazer de conta que tem uma casa. Na componente de fraude já há atitudes muito imaginativas.

Já há casos de gente que usou inteligência artificial para fazer de conta que tem uma casa. Na componente de fraude já há atitudes muito imaginativas.

É um recurso positivo, veio dar um contributo fundamental, porque os técnicos das câmaras estavam a trabalhar, têm muito trabalho. No resultado da própria tempestade houve danos nas estradas, em pavilhões municipais, em parques desportivos, edifícios culturais, etc. Houve uma sobrecarga de trabalho brutal. Arranjaram-se soluções para complementar essa capacidade técnica, mas, obviamente, é preciso tempo.

E esta é a mensagem que quero sumariar. Está toda a gente a trabalhar, a trabalhar muito. Há uma sobrecarga, nomeadamente sobre estas três câmaras da região centro, e depois há câmaras de Lisboa e Vale do Tejo, por exemplo, Vila Nova de Ourém pertence ao grupo dos três municípios mais afetados no que respeita a número de habitações. Testemunho este empenho, este trabalho de toda esta gente, mas dou nota que é preciso tempo, é preciso mais tempo para que toda a gente que tenha direito receba a ajuda para repor a normalidade, neste caso, da sua habitação.


O presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) está convicto de que apenas um terço das candidaturas apresentadas para apoiar a reconstrução das habitações devastadas pelo comboio de depressões será elegível para apoio. Fraudes, candidaturas de segundas habitações (que não são elegíveis) e falta de informação mínima são algumas das razões que levaram José Ribau Esteves a indeferir já 900 candidaturas. O antigo autarca de Aveiro sublinha ainda que é preciso ter consciência que a recuperação dos territórios vai levar “muito tempo”.

O novo presidente da CCDR Centro revela, no ECO dos Fundos, o podcast quinzenal do ECO sobre fundos europeus, que será publicado na próxima semana, que já pagou cerca de um milhão de euros em apoios. “Entraram só na região centro um bocadinho mais de 19 mil candidaturas. Das três mil que já estão tramitadas pelas câmaras e pela CCDR, 1.500 estão absolutamente concluídas. E dessas, 500 tiveram pagamento de um valor de indemnização, 900 foram indeferidas”, precisou Ribau Esteves.

“Estamos a falar de uma percentagem de quase dois terços que são indeferidas por múltiplos motivos. Ou porque não têm, o mínimo de informação consistente para poderem receber a indemnização, ou porque tiveram fraude, ou porque são segunda habitação e estas não são elegíveis”, explicou. “É a minha profunda convicção que, quando acabarmos todo este trabalho — que é um imenso trabalho, ainda por cima com uma concentração em três municípios, 70% das tais 19 mil candidaturas são em Leiria, na Marinha Grande e em Pombal –, dos 130 milhões que estão candidatados, não devemos andar longe de um terço do valor real confirmado que vamos pagar”, sublinha.

Já passaram cerca de dois meses, mais ou menos, desde o comboio de tempestades que devastou a região centro do país. Já tem uma contabilização dos estragos provocados?

Com um mês de trabalho na presidência da CCDR do Centro, uma das tarefas que veio perturbar a nossa vida normal, que já é muito agitada, já tem muitas competências, é cogerir as consequências negativas. Mas agora já estamos a falar da reação, o mais rápida e qualificada possível, à reposição da vida normal, seja das empresas, das habitações, das pessoas nas ajudas diretas, etc. Temos uma percentagem muito relevante da organização a trabalhar para a gestão desta reação. É preciso cuidado com os números porque criou-se uma ambiência de que tudo vai ser resolvido muito rapidamente e que, em muito pouco tempo, o dinheiro está na conta das pessoas, as obras estão feitas, a nossa reação é rápida e temos capacidade técnica de logística e financeira para tudo acontecer muito rapidamente.

Quando respondo a estas perguntas, gosto sempre de deixar esta nota: os danos e as perdas foram muito relevantes e, obviamente, há um trabalho que está em curso para repor. Mesmo que tivéssemos todo o dinheiro na conta de toda a gente, a capacidade técnica e de meios logísticos, materiais, para repor a normalidade nas empresas, nas habitações privadas, nos equipamentos públicos, nos arruamentos exige tempo.

E de quanto tempo estamos a falar? Qual é a sua estimativa?

Não quero falar sobre isso, porque qualquer número que dê não tem um racional objetivo. É preciso muito tempo. É bom lembrar que, arredondando a conta, há quatro anos, no pós-Covid, começou um fenómeno nos concursos públicos em Portugal de não termos empresas para tudo. De termos muitos concursos públicos, das câmaras, da instituição central, que ficam desertos. Isto quer dizer o quê? Que uma coisa boa e uma coisa má.

A coisa boa é que estamos em crescimento económico e há muito trabalho, há muita oferta de trabalho. E isto é bom. O lado negativo é que não temos capacidade disponível na construção civil, na capacidade de projetar, para responder a este pico. Daí os concursos de desertos. Quando chega no meio desta realidade, uma tempestade ou um conjunto delas que causam dano, obviamente que aquela realidade anterior é a mesma, não mudou. Portanto, precisamos de ter mais capacidade para reagir, mas a capacidade instalada para fazer é a mesma. É preciso tempo. Posso especular que em dois três anos está tudo no seu sítio. Mas é um exercício muito especulativo. Temos, só na região centro, um bocadinho mais de 19 mil habitações que sofreram danos.

Posso especular que em dois três anos está tudo no seu sítio. Mas é um exercício muito especulativo. Temos, só na região centro, um bocadinho mais de 19 mil habitações que sofreram danos.

Estamos a tratar de todas as candidaturas. Muitas delas que estão incorretas candidataram segundas habitações. Algumas são falsidades de pessoas menos sérias a tentar ter acesso a recursos a que não têm direito. Temos depois a componente social, do apoio ao rendimento, do apoio ao não trabalho, nomeadamente nas empresas, que é um trabalho mais ligado à ação social, que acompanhamos, mas sem sermos parte desse processo, globalmente a correr bem. As empresas, que têm uma relação mais direta com o Banco de Fomento, com os indicadores que o banco vai atualizando, também numa lógica positiva. Na agricultura, os meios estão definidos, as tipologias estão definidas, mas ainda não há uma cobertura total para todos os problemas. São muitas frentes.

E dou só um exemplo. A suinicultura de Leiria sofreu danos brutais, de muitas dezenas de milhões de euros. Mas hoje, quando vamos resolver o problema, ajudando aqueles industriais, há outros problemas. É que elas não foram licenciadas; ainda hoje subsistem problemas de recolha e tratamento dos efluentes que emitem. Claro que vamos ajudar, é um setor importantíssimo da atividade económica do país e um recurso alimentar importante, mas não vamos só cuidar de ajudar, de repor o telhado, a capacidade produtiva que parcialmente foi perdida. Temos de aproveitar o ensejo e tratar de tudo mais o resto. Quando, e bem, abordamos o tratamento do dano, da perda, para resolver outros problemas que já lá existiam, estamos, por um lado, a complicar a nossa vida de gestores da reposição do tal dano, mas estamos a aproveitar, na lógica positiva do já agora, para resolver problemas que nunca foram resolvidos. Aquilo é que o Governo veio chamar a transformação. O T do PTRR, que é muito importante.

Mas insisto: já tem ideia do montante? O ministro da Economia disse que seria superior a 4,7 mil milhões. O presidente da estrutura de missão falou em seis mil milhões. Em que ficamos?

De mim nunca ninguém ouvirá nenhum número. Por uma questão muito simples. Sou gestor financeiro e, quando falo de um número, falo com rigor. E não tenho nenhum mecanismo para, com rigor, subscrever qualquer um desses números. Percebi o racional do senhor ministro dos 4,7, percebi o racional do Paulo Fernandes dos seis, mas não subscrevo nenhum. Estamos a falar de muito dinheiro, de uma operação que tem vários mecanismos de receita para ajudar a compor. E temos de ter cuidado na comunicação, porque há aqui relações delicadas, desde logo, das seguradoras, que têm de aportar uma parte da verba que vai ajudar a repor o dano e a perda. Temos, infelizmente, mas é o ser humano, uma parte das pessoas a tentarem, por fraude, terem acesso a direitos que não têm.

“Na agricultura, os meios estão definidos, as tipologias estão definidas, mas ainda não há uma cobertura total para todos os problemas”, alerta José Ribau Esteves, Presidente da CCDR Centro, em entrevista ao podcast “ECO dos Fundos”.Hugo Amaral/ECO

Tem uma noção de quantos casos, em percentagem do número de candidaturas, quantas é que já foram rejeitadas?

Só para ter uma noção, números do dia 24 ou 25 de março, entraram só na região centro um bocadinho mais de 19 mil candidaturas. Das três mil que já estão tramitadas pelas câmaras e pela CCDR, 1.500 estão absolutamente concluídas. E dessas, 500 tiveram pagamento de um valor de indemnização, 900 foram indeferidas. E depois ainda ficam ali umas 100 que ainda estão nesta fase de tramitação do pagamento. Estamos a falar de uma percentagem de quase dois terços que são indeferidas por múltiplos motivos. Ou porque não têm, o mínimo de informação consistente para poderem receber a indemnização, ou porque tiveram fraude, ou porque são segunda habitação e estas não são elegíveis. Estes argumentos, e mais algum de pormenor, levam a que haja indeferimentos. No fundo, temos cerca de 130 milhões que estão apresentados como candidatura.

É a minha profunda convicção que, quando acabarmos todo este trabalho — que é um imenso trabalho, ainda por cima com uma concentração em três municípios, 70% das tais 19 mil candidaturas são em Leiria, na Marinha Grande e em Pombal –, dos 130 milhões que estão candidatados, não devemos andar longe de um terço do valor real confirmado que vamos pagar. Não há problema de dinheiro. A CCDR recebeu do Governo uma transferência financeira de 185 milhões de euros.

Quanto é que a CCDR já pagou desses 185 milhões que o Ministério das Finanças lhe transferiu?

Pagámos, atualmente, os tais 500 processos que estão pagos e que é pouco mais de um milhão de euros.

E consegue pagar num dia ou no dia a seguir, como diz o ministro da Economia?

Absolutamente. A partir do momento que o processo administrativo está terminado, está validado, pagamos de um dia para o outro. Sou eu que dou autorização. O gestor financeiro da CCDR sou eu. Se recebo a nota da unidade financeira a dizer que está pronto para pagar de manhã, à tarde está pago. Se recebo à tarde ou à noite — não me deito sem despachar — no dia seguinte está pago. Mas é bom lembrar isto, é possível pagar num dia ou dois dias, logo que o processo administrativo, a validação administrativa e técnica, está terminada.

A minha profunda convicção que, quando acabarmos todo este trabalho, dos 130 milhões que estão candidatados, não devemos andar longe de um terço do valor real confirmado que vamos pagar.

Foi criada uma bolsa de técnicos, cerca de 750, com a ajuda da Ordem dos Engenheiros e da Ordem dos Engenheiros Técnicos. Desses 750, quantos têm a trabalhar convosco na região Centro?

É muito importante clarificarmos isto, porque deu-se uma noção, nas notícias mais apressadas, de que estão aqui 700 pessoas disponíveis a trabalhar o tempo inteiro, que não fazem mais nada na vida que não seja isto. Isso não é verdade. A bolsa é uma bolsa, mas a esmagadora maioria desses técnicos não está disponível a todo o tempo. Vão-se disponibilizando por tempo parcial. Em Portugal, felizmente, não há desemprego nestas áreas. As pessoas estão a trabalhar, mas disponibilizaram-se para dar uma hora por dia, dez horas a um sábado ou quatro horas a uma sexta-feira, para darem o seu contributo.

E depois, há os problemas da eficiência dessas horas de trabalho. As pessoas têm de perceber o trabalho, têm de conhecer a realidade, seja quando são as candidaturas até cinco mil euros horas, a tratar de fotografias, seja quando têm de ir ao terreno para fazer vistorias daquelas que têm valor entre cinco mil e dez mil. Portanto, isto não é rápido. Neste momento devemos ter cerca de metade dessas pessoas a trabalhar no terreno, mas não é oito horas por dia, cinco horas por semana, porque eles são profissionais de outras artes.

E ajuda que foi disponibilizada pelas câmaras de maior dimensão, Lisboa e Porto, para as câmaras mais pequenas que não têm condições algumas de fazer face a esta catástrofe? Esses técnicos já chegaram?

Esses técnicos chegaram, fizeram algum trabalho e foram embora. Na maior parte dos casos, esses técnicos eram assistentes sociais, sociólogos, não eram exatamente engenheiros para ficarem a fazer este trabalho. Este trabalho, para ser eficiente, exige estar no terreno. Diria que, com menos de duas semanas de estar no terreno, não é possível ter níveis de eficiência que comecem a produzir relatórios para depois na CCDR podermos pagar. É preciso tempo para conhecer o território. Mesmo só para analisar fotografias, é preciso um conhecimento mínimo do território para poder olhar para uma fotografia e apreciá-la como deve ser. Enfim, já há casos de gente que usou inteligência artificial para fazer de conta que tem uma casa. Na componente de fraude já há atitudes muito imaginativas.

Já há casos de gente que usou inteligência artificial para fazer de conta que tem uma casa. Na componente de fraude já há atitudes muito imaginativas.

É um recurso positivo, veio dar um contributo fundamental, porque os técnicos das câmaras estavam a trabalhar, têm muito trabalho. No resultado da própria tempestade houve danos nas estradas, em pavilhões municipais, em parques desportivos, edifícios culturais, etc. Houve uma sobrecarga de trabalho brutal. Arranjaram-se soluções para complementar essa capacidade técnica, mas, obviamente, é preciso tempo.

E esta é a mensagem que quero sumariar. Está toda a gente a trabalhar, a trabalhar muito. Há uma sobrecarga, nomeadamente sobre estas três câmaras da região centro, e depois há câmaras de Lisboa e Vale do Tejo, por exemplo, Vila Nova de Ourém pertence ao grupo dos três municípios mais afetados no que respeita a número de habitações. Testemunho este empenho, este trabalho de toda esta gente, mas dou nota que é preciso tempo, é preciso mais tempo para que toda a gente que tenha direito receba a ajuda para repor a normalidade, neste caso, da sua habitação.



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