Bazuca europeia já perdeu mais de 10% do poder de fogo


São sete os países europeus que optaram por abrir mão de parte dos seus empréstimos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Em causa estão 74 mil milhões de euros, ou seja, menos 11,3% da totalidade da bazuca europeia.

“Dos 735 mil milhões de euros inicialmente disponibilizados no Mecanismo de Recuperação e Resiliência, entre subvenções e empréstimos, os Estados-membros mobilizaram cerca de 650 mil milhões de euros para os seus planos nacionais. Contudo, ao longo de 2025 e 2026 registou-se uma redução relevante deste montante, essencialmente decorrente da diminuição da componente de empréstimos, traduzida num decréscimo de cerca de 74 mil milhões de euros (-11,3%)”, lê-se no sexto relatório da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR.

O exemplo mais relevante é o de Espanha que desistiu de 60,45 mil milhões de euros em empréstimos, ou seja, 37,1% da sua bazuca. Uma opção que catapultou o país vizinho para os Estados com maiores níveis de execução, já que o número de metas e marcos passou de 250 para 230, dos quais 54% estão cumpridos.

A justificação do primeiro-ministro espanhol foi a de que os empréstimos europeus já não eram economicamente tão vantajosos e porque os prazos não eram compatíveis com os limites impostos pelo PRR. Em 2021, quando Espanha solicitou os empréstimos, que ascendem a 83,16 mil milhões de euros, o custo de financiamento do Estado era 0,7 pontos percentuais (pp) superior ao da Comissão Europeia. Agora é apenas 0,03 ou 0,04 pp mais caro.

Mas se Espanha responde por 81,68% deste bolo, há mais seis países que também optaram por abdicar de parte dos seus empréstimos, nomeadamente, Portugal. O Governo de Luís Montenegro optou na reprogramação do final do ano passado por deixar cair 311 milhões de euros em, empréstimos do PRR, associados à expansão da linha vermelha do Metro de Lisboa e do Hospital Oriental, projetos que terão de encontrar uma fonte alternativa de financiamento.

Quantia mais pequena só mesmo no caso do Chipre que abdicou da totalidade dos empréstimos inicialmente concedidos (200 milhões), aos quais estavam associadas sete medidas. A alteração foi feita no âmbito da quinta reprogramação do PRR cipriota na qual seis desses sete investimentos foram abandonados. Um deles foi a interligação elétrica marítima entre a Grécia e Chipre, que tinha alocados 100 milhões de euros, que foi considerado impossível de implementar nos prazos do PRR, já que em março ainda não tinha sido iniciada.

A bazuca cipriota – da qual Bruxelas pagou a 12 de março a totalidade do quinto cheque (parte estava suspensa por incumprimento das metas e marcos) – está agora restringida a 1,02 mil milhões de euros de subsídios. Mas, ainda assim, o Tribunal de Contas Europeu alerta para os riscos de implementação já que apenas foram absorvidos 56% deste valor.

Também a Roménia e a Polónia registaram reduções significativas dos empréstimos, quer em termos absolutos, quer relativos – 7,09 mil milhões e 5,1 mil milhões, respetivamente. No caso da Roménia foi cerca de ¼ do PRR (24,9%), mas ainda assim é o quarto país mais atrasado na execução financeira. A Roménia já utilizou cerca de 10,72 mil milhões de euros de um pacote inicial de 28,5 mil milhões de euros em subsídios e empréstimos, agora reduzido para 21,4 mil milhões.

“A Roménia não perderá um único euro da parte não reembolsável de 13,57 mil milhões de euros”, disse Dragos Pislaru, o ministro romeno com a tutela dos fundos europeus. “Verificou-se uma redução da componente do empréstimo, agora nos 7,8 mil milhões de euros, face aos 14,9 mil milhões de euros inicialmente disponíveis”, precisou o responsável em julho quando o país tomou a decisão de avançar com a reprogramação.

A Roménia tem 36% das suas metas e marcos cumpridos, mas sofreu alguma estagnação na implementação da bazuca europeia devido a uma longa época eleitoral, que incluiu uma eleição presidencial cancelada em dezembro de 2024 e realizada novamente em maio de 2025.

O peso dos empréstimos nas contas públicas é um fator de preocupação para a Roménia, já que tem lutado para controlar o seu défice orçamental desde antes da pandemia. Tem de reduzir os 8,6% de 2025 (foi de 9,3% do PIB em 2024 – o mais elevado da UE) para menos de 3% até 2031. Mas as previsões da Comissão Europeia apontam para uma trajetória descendente, prevendo um desequilíbrio de 8,4% este ano. Já a dívida pública deverá atingir os 63,3% do PIB este ano, de acordo com as previsões da Primavera.

No caso romeno, as negociações com Bruxelas implicaram grandes mudanças. Por exemplo, 2,17 mil milhões de euros em projetos de infraestruturas (nomeadamente troços da autoestrada A7 da Moldávia) foram transferidos de empréstimos para subvenções, enquanto alguns projetos hospitalares e ferroviários sofreram cortes orçamentais ou foram afetados a outras fontes de financiamento.

Alguns projetos, como troços da autoestrada A8, deverão agora ser financiados pela Política de Coesão ou pelo Programa SAFE. Por outro lado, o pedido de pagamento do terceiro cheque do PRR só foi parcialmente cumprido (1,3 mil milhões de euros de um total de dois mil milhões de euros), estando o restante pendente de reformas relativas a pensões especiais, governance das empresas públicas e à operacionalização da Agência de Monitorização das Empresas Públicas.

A Polónia, que tem o terceiro maior PRR, decidiu abrir mão de 6,1 mil milhões de euros em empréstimos, na penúltima reprogramação submetida a Bruxelas. Ao todo foram cinco reprogramações, sendo que a última foi entregue a 11 de março, mas ainda aguarda luz verde da Comissão, com o objetivo de alinhar o plano de execução dos investimentos com o ritmo real de implementação.

Varsóvia manteve os 25,3 mil milhões de euros em subvenções, mas os 34,5 mil milhões de euros em empréstimos passaram para 29,4 mil milhões. Os empréstimos são classificados como dívida pública, embora sejam pagos pelos beneficiários finais — como as empresas e os governos locais — ao longo de um prazo mais longo. E, por isso, o peso que têm nas contas públicas também ajuda os governos a abrir mão destes empréstimos. De acordo com as previsões da Comissão Europeia, a Polónia teve uma dívida de 58% do PIB em 2025 que deverá passar para 65,3% este ano. Já o défice de 6,4% do PIB no ano passado deverá descer para 6,1% este ano.

O país, que travou uma dura batalha com Bruxelas devido aos padrões democráticos no país e um escândalo em torno da utilização indevida de fundos da bazuca europeia, recebeu a 23 de abril, luz verde de Bruxelas ao quarto pedido de pagamento, que abrange a sexta e a sétima parcelas. Presentemente, tem 45% das metas e marcos cumpridos.

Também a Eslovénia e a Chéquia decidiram reduzir o volume de empréstimos num montante muito semelhante – 546 milhões de euros e 524 milhões, respetivamente – mas com pesos muito diferentes nos seus PRR (20,3% e 5,7%).

Parte dos investimentos eslovenos destinados a reduzir o risco de inundações, que inicialmente deveriam ser financiados pela componente de empréstimos, foi transferida para as subvenções. Mas outros investimentos como aumentar a capacidade da infraestrutura ferroviária vão ter de encontrar financiamento alternativo porque não ficariam prontos até 31 de agosto, como é o caso da modernização do troço ferroviário Prevalje – fronteira estatal.

A Chéquia foi dos primeiros países a abrir mão de parte dos empréstimos. A decisão foi tomada logo em agosto de 2023, depois das críticas de economistas independentes, porque aumentaria a dívida e os défices nos próximos anos, num momento em que o Executivo propunha aumentos de impostos e cortes nas despesas para reduzir o défice orçamental. Em 2023, o país registou um défice de 3,8% do PIB que foi paulatinamente reduzido para 2,3% no ano passado e deve cair para 2,2% este ano.

“A redução surge na sequência de consultas com a Comissão Europeia, que demonstraram claramente que certos tipos de projetos faz mais sentido serem financiados pelo orçamento do Estado ou, como no caso dos projetos de transportes, através de empréstimos do Banco Europeu de Investimento”, disse o ministro da indústria, Jozef Sikela, na altura.

Os 343 milhões de euros em empréstimos são agora canalizados para financiar projetos nas áreas da digitalização, desenvolvimento de chips informáticos e da habitação a preços acessíveis.


São sete os países europeus que optaram por abrir mão de parte dos seus empréstimos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Em causa estão 74 mil milhões de euros, ou seja, menos 11,3% da totalidade da bazuca europeia.

“Dos 735 mil milhões de euros inicialmente disponibilizados no Mecanismo de Recuperação e Resiliência, entre subvenções e empréstimos, os Estados-membros mobilizaram cerca de 650 mil milhões de euros para os seus planos nacionais. Contudo, ao longo de 2025 e 2026 registou-se uma redução relevante deste montante, essencialmente decorrente da diminuição da componente de empréstimos, traduzida num decréscimo de cerca de 74 mil milhões de euros (-11,3%)”, lê-se no sexto relatório da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR.

O exemplo mais relevante é o de Espanha que desistiu de 60,45 mil milhões de euros em empréstimos, ou seja, 37,1% da sua bazuca. Uma opção que catapultou o país vizinho para os Estados com maiores níveis de execução, já que o número de metas e marcos passou de 250 para 230, dos quais 54% estão cumpridos.

A justificação do primeiro-ministro espanhol foi a de que os empréstimos europeus já não eram economicamente tão vantajosos e porque os prazos não eram compatíveis com os limites impostos pelo PRR. Em 2021, quando Espanha solicitou os empréstimos, que ascendem a 83,16 mil milhões de euros, o custo de financiamento do Estado era 0,7 pontos percentuais (pp) superior ao da Comissão Europeia. Agora é apenas 0,03 ou 0,04 pp mais caro.

Mas se Espanha responde por 81,68% deste bolo, há mais seis países que também optaram por abdicar de parte dos seus empréstimos, nomeadamente, Portugal. O Governo de Luís Montenegro optou na reprogramação do final do ano passado por deixar cair 311 milhões de euros em, empréstimos do PRR, associados à expansão da linha vermelha do Metro de Lisboa e do Hospital Oriental, projetos que terão de encontrar uma fonte alternativa de financiamento.

Quantia mais pequena só mesmo no caso do Chipre que abdicou da totalidade dos empréstimos inicialmente concedidos (200 milhões), aos quais estavam associadas sete medidas. A alteração foi feita no âmbito da quinta reprogramação do PRR cipriota na qual seis desses sete investimentos foram abandonados. Um deles foi a interligação elétrica marítima entre a Grécia e Chipre, que tinha alocados 100 milhões de euros, que foi considerado impossível de implementar nos prazos do PRR, já que em março ainda não tinha sido iniciada.

A bazuca cipriota – da qual Bruxelas pagou a 12 de março a totalidade do quinto cheque (parte estava suspensa por incumprimento das metas e marcos) – está agora restringida a 1,02 mil milhões de euros de subsídios. Mas, ainda assim, o Tribunal de Contas Europeu alerta para os riscos de implementação já que apenas foram absorvidos 56% deste valor.

Também a Roménia e a Polónia registaram reduções significativas dos empréstimos, quer em termos absolutos, quer relativos – 7,09 mil milhões e 5,1 mil milhões, respetivamente. No caso da Roménia foi cerca de ¼ do PRR (24,9%), mas ainda assim é o quarto país mais atrasado na execução financeira. A Roménia já utilizou cerca de 10,72 mil milhões de euros de um pacote inicial de 28,5 mil milhões de euros em subsídios e empréstimos, agora reduzido para 21,4 mil milhões.

“A Roménia não perderá um único euro da parte não reembolsável de 13,57 mil milhões de euros”, disse Dragos Pislaru, o ministro romeno com a tutela dos fundos europeus. “Verificou-se uma redução da componente do empréstimo, agora nos 7,8 mil milhões de euros, face aos 14,9 mil milhões de euros inicialmente disponíveis”, precisou o responsável em julho quando o país tomou a decisão de avançar com a reprogramação.

A Roménia tem 36% das suas metas e marcos cumpridos, mas sofreu alguma estagnação na implementação da bazuca europeia devido a uma longa época eleitoral, que incluiu uma eleição presidencial cancelada em dezembro de 2024 e realizada novamente em maio de 2025.

O peso dos empréstimos nas contas públicas é um fator de preocupação para a Roménia, já que tem lutado para controlar o seu défice orçamental desde antes da pandemia. Tem de reduzir os 8,6% de 2025 (foi de 9,3% do PIB em 2024 – o mais elevado da UE) para menos de 3% até 2031. Mas as previsões da Comissão Europeia apontam para uma trajetória descendente, prevendo um desequilíbrio de 8,4% este ano. Já a dívida pública deverá atingir os 63,3% do PIB este ano, de acordo com as previsões da Primavera.

No caso romeno, as negociações com Bruxelas implicaram grandes mudanças. Por exemplo, 2,17 mil milhões de euros em projetos de infraestruturas (nomeadamente troços da autoestrada A7 da Moldávia) foram transferidos de empréstimos para subvenções, enquanto alguns projetos hospitalares e ferroviários sofreram cortes orçamentais ou foram afetados a outras fontes de financiamento.

Alguns projetos, como troços da autoestrada A8, deverão agora ser financiados pela Política de Coesão ou pelo Programa SAFE. Por outro lado, o pedido de pagamento do terceiro cheque do PRR só foi parcialmente cumprido (1,3 mil milhões de euros de um total de dois mil milhões de euros), estando o restante pendente de reformas relativas a pensões especiais, governance das empresas públicas e à operacionalização da Agência de Monitorização das Empresas Públicas.

A Polónia, que tem o terceiro maior PRR, decidiu abrir mão de 6,1 mil milhões de euros em empréstimos, na penúltima reprogramação submetida a Bruxelas. Ao todo foram cinco reprogramações, sendo que a última foi entregue a 11 de março, mas ainda aguarda luz verde da Comissão, com o objetivo de alinhar o plano de execução dos investimentos com o ritmo real de implementação.

Varsóvia manteve os 25,3 mil milhões de euros em subvenções, mas os 34,5 mil milhões de euros em empréstimos passaram para 29,4 mil milhões. Os empréstimos são classificados como dívida pública, embora sejam pagos pelos beneficiários finais — como as empresas e os governos locais — ao longo de um prazo mais longo. E, por isso, o peso que têm nas contas públicas também ajuda os governos a abrir mão destes empréstimos. De acordo com as previsões da Comissão Europeia, a Polónia teve uma dívida de 58% do PIB em 2025 que deverá passar para 65,3% este ano. Já o défice de 6,4% do PIB no ano passado deverá descer para 6,1% este ano.

O país, que travou uma dura batalha com Bruxelas devido aos padrões democráticos no país e um escândalo em torno da utilização indevida de fundos da bazuca europeia, recebeu a 23 de abril, luz verde de Bruxelas ao quarto pedido de pagamento, que abrange a sexta e a sétima parcelas. Presentemente, tem 45% das metas e marcos cumpridos.

Também a Eslovénia e a Chéquia decidiram reduzir o volume de empréstimos num montante muito semelhante – 546 milhões de euros e 524 milhões, respetivamente – mas com pesos muito diferentes nos seus PRR (20,3% e 5,7%).

Parte dos investimentos eslovenos destinados a reduzir o risco de inundações, que inicialmente deveriam ser financiados pela componente de empréstimos, foi transferida para as subvenções. Mas outros investimentos como aumentar a capacidade da infraestrutura ferroviária vão ter de encontrar financiamento alternativo porque não ficariam prontos até 31 de agosto, como é o caso da modernização do troço ferroviário Prevalje – fronteira estatal.

A Chéquia foi dos primeiros países a abrir mão de parte dos empréstimos. A decisão foi tomada logo em agosto de 2023, depois das críticas de economistas independentes, porque aumentaria a dívida e os défices nos próximos anos, num momento em que o Executivo propunha aumentos de impostos e cortes nas despesas para reduzir o défice orçamental. Em 2023, o país registou um défice de 3,8% do PIB que foi paulatinamente reduzido para 2,3% no ano passado e deve cair para 2,2% este ano.

“A redução surge na sequência de consultas com a Comissão Europeia, que demonstraram claramente que certos tipos de projetos faz mais sentido serem financiados pelo orçamento do Estado ou, como no caso dos projetos de transportes, através de empréstimos do Banco Europeu de Investimento”, disse o ministro da indústria, Jozef Sikela, na altura.

Os 343 milhões de euros em empréstimos são agora canalizados para financiar projetos nas áreas da digitalização, desenvolvimento de chips informáticos e da habitação a preços acessíveis.



source https://eco.sapo.pt/2026/05/06/bazuca-europeia-ja-perdeu-mais-de-10-do-poder-de-fogo/